sexta-feira, setembro 21, 2007

Mais uma vez

Hoje mais uma vez fui chamado para esclarecer minhas declarações de fé, visto que estava sendo mais uma vez acusado de defender heresias em dos seminários em que leciono. Tudo isso é desgastante e ainda não consegui ser indiferente. Espanto-me com o tamanho da ignorância que há nos círculos evangélicos. Parece realmente que não há mais jeito. Sou filho de pentecostais e lamento por tudo que aconteceu a este segmento. Sou um teólogo, mas lamento o que fazem à teologia.

Tudo é tão hipócrita, pois quantos elogios são me feitos por e por trás conspiram contra mim. Estou cansando e hoje triste. Sei que não devia afinal não é a primeira vez. Foi ainda na adolescência que ouvi de meus pastores e familiares que era um filho do diabo por ir contra a 'teologia da maldição hereditária'. Quantas vezes fui ferido com palavras porque ousava tratar questões sexuais de uma maneira menos rigorosa do que a que já estava estabelecida. Quantas acusações já fizeram.

Era proibido de ler poesias. Rasgavam meus escritos. E tudo que eu pensava era reprovado. Mas mesmo assim continuava, apesar de ir me ferindo muito quando por vezes acreditava que o problema era eu. Sei que foi só a Graça que conseguiu guardar a minha mente, pois em diversos momentos me vi traindo a minha própria consciência.

Quando enfim deixei a congregação, já a pastoreando por 5 anos, sai em busca de um lugar onde minha alma encontrasse repouso. E quão tristes foram as outras experiências. Era amando e sendo odiado. Fui envolvido em tanta mentira. Conheci os bastidores do mundo evangélico. Quase perdi minha alma. É impossível disso e participar e acabar não se sujando.

Fui visto como um homem que era contrário as ações do Espírito Santo por causa das minhas constantes críticas ao uso mentiroso e abusivo dos dons. Fui mal interpretado pelos que antes se diziam meus filhos quando disse que estava deixando a igreja por obediência a voz divina. Levantaram-se mentiras a meu respeito e paguei para além dos meus pecados, estes confessados diante de muitos.

Na última igreja que trabalhei fui levado a uma espécie de tribunal eclesiástico sendo acusado de perverter a doutrina da igreja. Naquela ocasião apesar da dor tomei a decisão de me desligar definitivamente da igreja evangélica. E no Caminho encontrei o caminho da Graça e verdadeiros irmãos.

A partir da minha associação aos do Caminho perdi empregos. Por não negociar a mensagem do Evangelho, estou a ponto de perder mais ainda. O que fazer? Eu espero em Deus que é o dono da minha vida e o Senhor do meu caminho em quem tenho a minha consciência presa.

Aos meus amigos, digo orem para que não me falte a coragem de sempre defender o Evangelho mesmo com riscos, e que não me falte o pão de cada dia. Aos demais, o que posso dizer? Deus julgará nossas vidas e espero que para com todos nós haja com misericórdia.

Ivo Fernandes
19 de setembro de 2007


DO CAMINHO SANTOS AO CAMINHO FORTALEZA

Ivo, mano querido!

Meu ex-teólogo preferido!

Nós te amamos! E a Janaína, principalmente!

Preste atenção:

O seu sofrer é o sofrer de todos os "do Caminho" errantes pelos desertos, cavernas e montes, que no abrir de bocas ousadas e no refletir de mentes livres se fazem grande ameaça ao "status quo" cultural promovido pelo espírito mercantilista, estelionatário, alucinógeno, fantasioso, legalista e farisaico, carnal e ensimesmado, faccioso, manipulador, sacerdotal, ufanista, ciumento e invejoso que impera na atmosfera vivencial da chamada "igreja".

Faça o Caminho e esqueça mesmo as glórias, honras, galardãos, canudos, reverências, reputações e homenagens, aplausos e palmas, tapinhas nas costas, "vou orar a respeito", "A paz do Senhor, seu idiota!" - esse é o caminho largo e a tendência é só piorar!

A "igreja" passará os últimos dias na Terra comprando, vendendo e se dando em casamentos de barganhas, uniões de negócios e amaziamentos de interesse! - mas mantendo uma incrível capacidade de no dia seguinte trair seus comparsas, em havendo uma oferta melhor. Daí suas ondas, moveres, visões e malabarismos bíblicos para justificar alianças espúrias. Tudo, lógico, para potencializar crescimentos e o blá blá blá "super-convincente" de púlpitos e programas de TV!

Nem a Teologia sobreviveu a teologia-desses-dias! Até o pacotinho sistematizado de dogmas zelosos se dobrou frente à Teologia da Grana!

Mas você foi chamado para SER e nada mais... e enquanto É, ir SENDO Nele a cada dia, com humildade, temor e tremor Àquele que te comprou por um preço que "não tem preço"!

Essa certeza não advém da sua membresia a uma comunhão humana auto-denominada "Caminho da Graça", mas tão somente porque creu sem ver, e crendo, não retrocedeu diante das seduções à Fé dos Sentidos contra a qual há tantas advertências em Gálatas e Hebreus, por ex. Creu, e crendo, não se segurou mais na segurança do conhecimento e do academicismo, do misticismo cristão, do paganismo evangélico, dos decretos apostólicos, das chantagens da impiedade religiosa que "rouba mendigo", das hierarquias verticalizadas, e das ''bençãos" decorrentes dos sacríficios de "beija-mão e enche-bolso".

Mano, seus olhos se abriram e a palhaçada acabou!!!! Deus seja louvado!!!!! Agora não tem mais jeito e não tem mais volta. Sorria!!! rs...

A única dor é olhar pra dentro, e ver-se a si mesmo! Mas até esse caminho por sombras e vales psíquicos é feito sob o chão da Graça e a convicção de que "tu sempre estás comigo!"

Qto aos juízes, deixem que continuem a julgar. A história já está acabando. Tudo será revelado.

Por ora, arranca do coração a amargura! Chacoalha a cabeça e perdoa perversos! Vê que na luta contra o pecado ainda não resistimos até o sangue. No máximo, perdemos amigos e dinheiro. E só. Considera o sofrimento dos teus irmãos por toda a Terra. Fortaleça joelhos trementes e mãos vacilantes e não agasalha a queixa e nem dê o sangue pelos seus direitos!

Tenho por certo, inclusive, que ELE mesmo te abrirá portas e mostrará novos horizontes profissionais -segundo teus dons - em nome de Jesus! (e o peço agora em oração)

E no mais, posso te certificar, falando pelo "Caminho" : Sua família não sofrerá danos. Quem tem, dará sem que lhe falte. Quem não tem, terá o suficiente! E haverá igualdade!

Que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos os irmãos de Fortaleza!

Marcelo, dentre os "do Caminho" em Santos.

quarta-feira, setembro 19, 2007

SANTIDADE SEGUNDO JESUS

(Do livro - ORAÇÃO PARA VIVER E MORRER, publicado em 1994; e escrito em 92; por Caio Fabio)

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” Jesus
(João 17: 17).

Vejamos o que Jesus estava nos ensinando quando relacionou o tema da santidade à Palavra e aquilo que Deus faz a nosso favor.

Para Jesus, a Palavra de Deus era o que poderia nos santificar

E o que é a Palavra de Deus?

Inicialmente devemos dizer que Jesus olhava para as Escrituras como Palavra de Deus (Jo. 5:39). Para Ele a questão nunca esteve entre o que era ou não Palavra de Deus no Velho Testamento, mas, apenas, em como entender, interpretar e aplicar essa Palavra ao contexto da vida humana. Ora, neste sentido Mateus 22: 23-46 é o melhor exemplo disso. Nos três episódios narrados naquele texto, a grande questão não é o que é Palavra de Deus, mas como entendê-la e aplicá-la (Mt. 23:2,3).

Sua mensagem não era nova, mas o aprofundamento da revelação já existente (Mt. 22:34¬40; Lc. 10.25-28).

Isto posto, devemos agora relacionar a Palavra com o fato de Jesus ter dito que deveríamos ser santificados por ela. Ora, nesse caso nossa visão do escopo e da profundidade da santificação muda radicalmente.

Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história, porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39).

Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14).

Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48).

Ser santo é mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais "sagradas" (Mt. 23.23).

Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37). Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade. (Mc.7.5;Lc.7.39).

Para Jesus ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46).

Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

A segunda idéia à qual o tema do Pai Santo e da santidade está relacionada em João 17 é a obra salvífica de Jesus. Isso porque a santificação que o Pai santo pede dos Seus filhos só pode ser vivida em Cristo. É por isso que Jesus, conquanto nos desafie concretamente à vivência da santidade, nos faz provisão espiritual para que tal santificação seja uma possibilidade.

Sem tal provisão espiritual a vida cristã é simplesmente impossível.

Assim a diferença entre legalismo e santidade é que o primeiro é esforço humano e o segundo é obra do Espírito.

Jesus Cristo é a única provisão de Deus para a salvação humana. E salvação e santificação andam extremamente ligadas.

Deus está redimindo hoje o espírito humano de modo forense e judicial, por causa da obra de Jesus na cruz. No entanto, tal salvação também traz consigo o anúncio das boas-novas de um processo redentivo, multidimensional, que Deus continua a realizar, atingindo variados segmentos da nossa própria vida. (Fp. 2.13).

O fato de a salvação precisar ser desenvolvida, não significa que ela tem de ser conquistada. Nós só desenvolvemos aquilo que temos, e nós temos a salvação, definitivamente, pela fé na Graça de Cristo. Tal salvação, precisa apenas expandir-se, corporificar-se e multidimensionar-se na existência humana.

A salvação judicial e forense, por meio da fé em Jesus, deve desembocar num processo de humanização, tendo Jesus como protótipo, conforme diz Romanos 8.29 "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos".

Assim é que, metafisicamente, aos olhos de Deus, nós somos uma obra acabada. Sua graça nos fez totais aos Seus olhos, de modo que judicial e forensemente estamos justificados. Mas historicamente falando, porém, veja o que Paulo diz em Filipenses 3.12,13: "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus". No versículo 16 diz ainda: “Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos”. O versículo 15 ele já havia dito: “Todos, pois que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Os dois elementos (salvação-forense-judicial versus salvação-histórico-processual) estão presentes nestas citações.

Portanto, tal salvação-santificação tem que se desenvolver aqui, na História.Na maioria das vezes, a santificação tem sido entendida como sendo o “lado humano” da salvação. Ou seja: “Cristo nos salvou e cabe a nós tornarmos-nos dignos da salvação através da santificação”. No entanto, não há santificação possível que prescinda também da graça santificadora de Deus.
De fato, o grande segredo da santificação, como já dissemos, é estar em Cristo e tendo sempre a coragem de verificar se estamos mesmo Nele (II Co. 13.5) Este é o princípio essencial à santificação e às demais virtudes da fé cristã.

Só não concorda com isso as pessoas que não gostam da graça justamente porque a graça não lhes dá controle sobre a situação.